Adão Lopes

O empresário precisa reaprender a pensar

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Adão Lopes

19 Set 2026 · 3 min de leitura

O empresário precisa reaprender a pensar

Durante muito tempo, ser um bom empresário significou acumular experiência, conhecer profundamente o próprio mercado, tomar decisões rápidas e construir respostas para os problemas que surgiam. Esse modelo funcionou durante décadas. Mas o ambiente mudou. Hoje, talvez uma das competências mais importantes de um empresário não seja ter todas as respostas, mas continuar fazendo boas perguntas.

A inteligência artificial colocou diante de nós uma capacidade extraordinária de acessar informações, analisar dados, comparar cenários, produzir conteúdo e executar tarefas em uma velocidade que nenhum ser humano consegue acompanhar sozinho. Isso muda profundamente a forma como trabalhamos. Mas existe um risco: quanto mais respostas prontas recebemos, menos somos estimulados a pensar por conta própria.

Por isso, acredito que o empresário precisa reaprender a pensar.

Pensar não é apenas processar informações. É questionar premissas. É perceber aquilo que os outros ainda não perceberam. É conectar pontos aparentemente distantes. É distinguir tendência de modismo, urgência de prioridade, oportunidade de distração. É conseguir sair da operação por alguns momentos e perguntar: por que fazemos dessa forma? Ainda faz sentido? E, se começássemos novamente hoje, faríamos igual?

Ontem, conversando com um amigo empresário, José Quiaradia Neto, ele me falou sobre os desafios do seu mercado, em que o preço dos produtos comercializados depende do clima, do mercado internacional e do feeling. Mostrei a ele como pode usar o ChatGPT no carro, conversando com uma inteligência artificial capaz de adiantar grande parte do seu trabalho. Também expliquei que podemos construir um agente que incorpore dados do próprio sistema corporativo da empresa e funcione como um consultor, aprendendo e aprimorando suas respostas a cada dia. Parece complexo, mas não é!

A IA pode nos ajudar enormemente nesse processo. Ela pode funcionar como uma segunda inteligência ao nosso lado, provocando hipóteses, organizando cenários e apresentando possibilidades. Mas a decisão continua exigindo contexto, experiência, valores, coragem e responsabilidade. A tecnologia amplia nossa capacidade de pensar. Ela não deveria substituir nossa disposição de pensar.

Talvez o maior perigo dos próximos anos não seja a inteligência artificial tomar decisões pelos empresários. O maior perigo seja o empresário terceirizar para a tecnologia aquilo que nunca deveria deixar de exercer: julgamento, visão e responsabilidade.

O líder do futuro precisará combinar duas capacidades que parecem opostas. De um lado, utilizar intensamente a tecnologia. Do outro, preservar profundamente sua humanidade. Saber perguntar à máquina, mas também conversar com pessoas. Interpretar dados, mas compreender comportamentos. Automatizar processos, mas continuar refletindo sobre propósito. Acelerar decisões sem perder profundidade.

Estamos entrando em um período em que empresas inteiras poderão operar com estruturas menores, agentes inteligentes poderão executar tarefas que hoje ocupam dezenas de pessoas, e decisões poderão ser apoiadas por uma quantidade de informação quase ilimitada. Nesse cenário, pensar bem se tornará ainda mais valioso.

Porque, quando todos tiverem acesso às mesmas ferramentas, a diferença não estará apenas na tecnologia utilizada.

Estará na qualidade das perguntas.

Na clareza das escolhas.

Na capacidade de enxergar antes.

E na coragem de decidir.

A inteligência artificial pode nos ajudar a encontrar respostas. Mas continuará sendo responsabilidade do empresário decidir quais perguntas realmente merecem ser feitas.